O “índio agricultor” e projetos de Estado:
uma etnografia do “projeto “Culturas de Inverno” em Roraima
DOI:
https://doi.org/10.29327/2791822.10.2-11Palavras-chave:
povos indígenas; agroestratégias; agronegócioResumo
Este artigo apresenta uma reflexão crítica sobre a forma como o Estado vem enquadrando a agricultura familiar nas comunidades indígenas de Roraima. A partir de uma experiência local na comunidade Serra do Truarú (RR), das falas de agentes sociais locais e da análise do modelo produtivo vigente, discutem-se os impactos das estratégias de integração ao agronegócio, como o Projeto Culturas de Inverno, que busca promover a agricultura familiar mediante o fornecimento de insumos e assistência técnica. Embora tais iniciativas possam gerar benefícios econômicos imediatos, elas trazem riscos à autonomia comunitária, ao fragilizarem práticas agrícolas tradicionais e a identidade sociocultural indígena. Essa dinâmica dialoga com as críticas de Almeida (2010), que aponta como as chamadas agroestratégias desconsideram os modos tradicionais de uso da terra, impondo às comunidades modelos produtivos exógenos e mercantilistas. Conclui-se que, embora o discurso da modernização e da sustentabilidade se apresente como promissor, ele encobre efeitos adversos sobre a soberania indígena, evidenciando a urgência de políticas públicas que valorizem a autonomia e os projetos de vida dos povos indígenas.
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