Os lugares não certos dos vaqueiros da ilha de Marajó
DOI:
https://doi.org/10.29327/2791822.10.2-14Palabras clave:
Cosmologia; Oralidade; Etnografia; Encantamento.Resumen
O artigo propõe uma leitura dos “lugares não certos” dos vaqueiros do Marajó: espaços carregados de significados que funcionam como portais simbólicos entre o visível e o invisível. Ancorado em uma etnografia situada na Fazenda Mineiro, na comunidade de Cima do Teso, o texto dá centralidade à escuta dos vaqueiros, cujas narrativas orais revelam experiências sensíveis e relações indissociáveis entre humanos, não humanos, animais e paisagens. Locais como a Ponta do Maguary, o Furo do Bode, o Xixá do Carro, as Três Ilhas e o Dom Ramiro constituem territórios onde o natural e o sobrenatural se entrelaçam por meio de sinais, assombros, encantarias e prenúncios. O artigo sustenta que os “lugares não certos” não devem ser compreendidos como meros espaços de anomalias ou superstições, mas como fronteiras de conhecimento que envolvem sensorialidade, ancestralidade e resiliência. Com base na cosmologia amazônica e na oralidade dos vaqueiros, defende-se que esses territórios são constitutivos de uma identidade singular e expressam uma linguagem própria de leitura e orientação do mundo. Conhecê-los implica reconhecer outras epistemologias, em que o silêncio, o respeito e a escuta atuam como dispositivos de saber. Trata-se de uma cartografia sensível, onde memória, corpo e território se confundem num só movimento.
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