Infância e compreensão clínica:
o aconselhamento psicológico como abertura ao ser-aí da criança
Palavras-chave:
Aconselhamento psicológico; Atendimento psicológico infantojuvenil; Compreensão clínica; Escuta fenomenológica; Ser-criançaResumo
O presente artigo tem como tema central o aconselhamento psicológico infantil, discutido a partir das possibilidades de compreensão na perspectiva fenomenológico-existencial. Parte-se de uma reflexão histórica sobre a construção social da infância, evidenciando como sua representação se transformou ao longo do tempo e influenciou as formas de compreender e intervir sobre o sofrimento infantil. No cenário contemporâneo, observa-se um aumento significativo de diagnósticos e da medicalização das crianças, o que suscita a necessidade de resgatar o olhar compreensivo sobre a existência infantil. Nesse contexto, o psicólogo é convocado a ir além da avaliação técnica e a oferecer um espaço de escuta e acolhimento que permita à criança expressar-se em sua totalidade. Fundamentado na fenomenologia-existencial, o aconselhamento infantil propõe uma prática centrada no ser-aí da criança, valorizando o brincar como meio privilegiado de expressão e revelação do modo de ser. Por meio de relatos clínicos, o artigo ilustra a importância do vínculo, da liberdade e da postura de epoché² do terapeuta para que a compreensão aconteça a partir do vivido e não de categorias prévias. Conclui-se que a escuta fenomenológica amplia o campo de possibilidades de compreensão da criança, favorecendo intervenções mais autênticas, criativas e coerentes com sua existência singular.