ISSN: 2318-2229
Vol. 14, N. 29 (Jan-Jun/2026)
O romance de autoria feminina
Tema tica Livre
Dra. Adriana Cristina Aguiar Rodrigues (PPGL-UFAM/PPGLA-UEA) Dra. Catarina Martins (Universidade de Coimbra)
Dra. Daiana Nascimento (Universidad de Playa Ancha)
Recebido: 12/07/2025 Aceito: 11/12/2025
Como citar:
VELOSO, Rodrigo Felipe. Literatura e ecocrítica: o paradoxo da sobrevivência em A vida não é útil e Kuján e os meninos sabidos, de Ailton Krenak. Revista Decifrar, Manaus, v. 14, n. 29, e292601, jan.-jun. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.29281/rd.v14i29.18.373
LITERATURE AND ECOCRITICISM: THE PARADOX OF SURVIVAL IN A VIDA NÃO É ÚTIL AND KUJÁN E OS MENINOS SÁBIOS, BY AILTON KRENAK
Doutor em Letras: Estudos Literários Universidade Estadual de Montes Claros
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7840-584X DOI: https://doi.org/10.29281/rd.v14i29.18373
E as esmeraldas, Minas, que matavam de esperança e febre e nunca se achavam e quando se achavam
eram um verde engano?
(Carlos Drummond de Andrade).
Existe uma ecologia das idéias danosas, assim como existe uma ecologia das ervas daninhas. (Gregory Bateson)
RESUMO: Este resumo tem por objetivo refletir sobre o paradoxo da sobrevivência humana a partir de uma leitura ecocrítica de A vida não é útil e Kuján e os meninos sabidos, de Ailton Krenak. Ambas as obras propõem um deslocamento do antropocentrismo moderno ao interpelar modos de vida que priorizam o consumo, a produtividade e o domínio sobre a natureza, deslegitimando a vida em sua dimensão coletiva, ancestral e simbólica. Krenak reivindica um outro modo de habitar o mundo, em que a existência não se reduza a uma lógica utilitarista e predatória. Em A vida não é útil, esse questionamento é feito por meio de crônicas e reflexões filosófico-poéticas que desnaturalizam a ideia de progresso e nos convocam a repensar o sentido da vida humana na Terra. Já Kuján e os meninos sabidos reencena, em forma de narrativa oral, um rito de passagem simbólico: a travessia de um rio por jovens que precisam abandonar a ilusão do humano como centro do universo para aprender com a escuta, a água, os sonhos e os seres não humanos. Ambas as obras operam um resgate da cosmovisão indígena e da sabedoria dos povos originários, tensionando os valores da modernidade ocidental. Com base na Ecocrítica e no pensamento de Krenak, a literatura surge como ferramenta de resistência, reconexão e cuidado com a vida, ao evidenciar que sobreviver sem sentido é também uma forma de morrer.
the world, one in which existence is not reduced to a utilitarian and predatory logic. In "Life Is Not Useful," this questioning is posed through chronicles and philosophical-poetic reflections that denaturalize the idea of progress and call us to rethink the meaning of human life on Earth. Meanwhile, "Kuján and the Wise Boys" reenacts, in oral narrative form, a symbolic rite of passage: the crossing of a river by young people who must abandon the illusion of the human as the center of the universe to learn from listening, water, dreams, and non-human beings. Both works revive the indigenous worldview and the wisdom of native peoples, challenging the values of Western modernity. Based on ecocriticism and the thought of Krenak, literature emerges as a tool of resistance, reconnection, and care for life, demonstrating that surviving without meaning is also a form of dying.
Se a gente permitir que a vida seja útil, ela será apenas uma engrenagem de uma grande máquina e, nessa engrenagem, seremos moídos (Autor).
A literatura contemporânea tem se consolidado como um espaço privilegiado para o questionamento das narrativas hegemônicas que sustentam a lógica do progresso, da produtividade e da exploração irrestrita dos recursos naturais. Diante da intensificação da crise ambiental global e do colapso de paradigmas modernos, muitas obras literárias têm incorporado um discurso ético-estético voltado à revalorização das múltiplas formas de vida, à escuta das vozes silenciadas e à crítica ao antropocentrismo. Nesse cenário, as produções de autoria indígena emergem como vozes fecundas que reconfiguram os modos de pensar o mundo, a vida e a convivência. Entre essas vozes, destaca-se a de Ailton Krenak, liderança indígena, ativista e escritor, cuja obra mobiliza saberes ancestrais para propor uma ruptura com os modelos civilizatórios vigentes.
Krenak inscreve sua escrita em uma linhagem que ultrapassa os limites da literatura convencional ao conjugar oralidade, cosmologia e filosofia ameríndia. Em A vida não é útil (2020) e Kuján e os meninos sabidos (2024), contendo nesta ilustração de Rita Carelli. O autor propõe uma reinterpretação radical do conceito de “sobrevivência”, deslocando-o de sua acepção funcionalista e associando-o a uma prática de resistência existencial e cultural. Ao desconstruir o imaginário moderno, que vincula a vida à ideia de utilidade, desempenho e controle, Krenak reivindica a
inutilidade como horizonte de liberdade, reencantamento e pertencimento à Terra. Suas obras, portanto, não apenas denunciam os efeitos da crise ecológica, mas apontam para uma reconexão simbólica com o mundo natural.
Nesse sentido, este artigo propõe uma leitura ecocrítica das referidas obras de Krenak, com o objetivo de refletir sobre o paradoxo da sobrevivência, entendido como a possibilidade de continuar existindo por meio da recusa dos parâmetros civilizatórios ocidentais. A sobrevivência, nesse caso, não está atrelada à acumulação de recursos ou ao domínio da natureza, mas à capacidade de escutar os ritmos da Terra, de habitar o tempo profundo e de cultivar vínculos afetivos com os seres vivos e os elementos do mundo. A literatura, como campo simbólico e performativo, revela-se um meio privilegiado para a formulação dessas novas ontologias e cosmologias.
A abordagem ecocrítica adotada neste estudo se ancora nos pressupostos de autores como Cheryll Glotfelty (1996), Lawrence Buell (2005) e Enrique Leff (2006), os quais concebem a literatura como um dispositivo de mediação entre os discursos ambientais e os modos de subjetivação contemporâneos. Além disso, o pensamento ameríndio, representado por Eduardo Viveiros de Castro (2015), Marisol de la Cadena (2015) e pelo próprio Krenak (2020; 2024), permite vislumbrar horizontes ontológicos que rompem com a dicotomia natureza/cultura, propondo a coexistência de múltiplas formas de existência. Dessa forma, a análise das obras será conduzida a partir da articulação entre literatura, cosmopolítica e crítica ecológica, evidenciando como a escrita de Krenak opera uma descolonização dos imaginários ambientais.
Assim, ao examinar as estratégias narrativas e simbólicas presentes em A vida não é útil e Kuján e os meninos sabidos, pretende-se compreender como Ailton Krenak mobiliza a literatura como instrumento de insurgência contra a racionalidade moderna. Ao propor a inutilidade como valor existencial, o autor reconecta a experiência humana a um tecido mais amplo de vida e ancestralidade, sugerindo que o futuro do planeta depende, paradoxalmente, da recusa em continuar sobrevivendo nos termos impostos pelo capitalismo global. O artigo, portanto, busca contribuir com os debates contemporâneos sobre literatura, ecocrítica e pensamento decolonial, destacando o papel das cosmologias indígenas na construção de novas possibilidades de existência.
A Ecocrítica, conforme estabelecida por Cheryll Glotfelty (1996), inaugura uma abordagem interdisciplinar que visa repensar as fronteiras entre literatura e meio ambiente, deslocando o foco da crítica tradicional para incluir a representação da natureza como elemento ativo nas narrativas. Ao compreender que o mundo natural não é apenas pano de fundo, mas parte constitutiva da experiência humana expressa literariamente, a ecocrítica propõe um engajamento ético com os textos, em que os discursos ambientais ganham visibilidade simbólica e política. Nesse sentido, a literatura passa a ser compreendida como um espaço de resistência e reimaginação das relações entre humanos e não humanos.
Complementando essa perspectiva, Lawrence Buell (2005) aprofunda a discussão ao afirmar que a maneira como a natureza é representada na literatura carrega implicações éticas, estéticas e políticas. Para Buell, as narrativas literárias têm o poder de moldar a sensibilidade dos leitores, promovendo uma consciência crítica diante da crise ambiental contemporânea. Ao oferecer imagens, metáforas e estruturas narrativas que ampliam a percepção sobre a interdependência entre seres humanos e o mundo natural, a literatura se configura como uma ferramenta poderosa para a reconstrução de imaginários ecológicos. A estética, nesse caso, não se separa da ética, mas a pressupõe.
Entretanto, como destaca Enrique Leff (2006), a crítica ecológica precisa ir além da denúncia ambiental e assumir-se também como crítica cultural, interrogando os próprios alicerces epistemológicos do pensamento moderno ocidental. Esse paradigma, que separa natureza e cultura, sujeito e objeto, tem sustentado por séculos práticas de dominação e exploração da Terra, legitimando o extrativismo e o colonialismo. Leff propõe, portanto, uma reapropriação simbólica da natureza por meio de saberes outros, capazes de instaurar novas racionalidades. A ecocrítica, nessa linha, não pode estar dissociada da luta por justiça epistemológica e por pluralidade de cosmologias, ou seja, “uma crise da civilização, da cultura ocidental, da racionalidade da modernidade, da economia do mundo globalizado” (Leff, 2006, p. 11).
É nesse contexto que o pensamento indígena, especialmente das cosmologias ameríndias, oferece contribuições decisivas para a descolonização dos imaginários ecológicos. Conforme apontam Eduardo Viveiros de Castro (2015) e Marisol de la Cadena (2015), esses modos de existência não operam segundo a lógica binária ocidental, mas se estruturam a partir do perspectivismo, em que todos os seres — humanos, animais, plantas, rios — são dotados de agência e perspectiva. A natureza, portanto, não é objeto de exploração ou contemplação, mas sujeito de relação. Trata-se de uma ontologia relacional, em que o viver implica escuta, convivência e respeito aos ciclos da vida.
Ailton Krenak insere-se de forma singular nesse horizonte teórico ao propor, em suas obras, uma escuta da Terra como forma de insurgência contra a racionalidade produtivista e extrativista. Ao afirmar que “a vida não é útil”, o autor questiona o fundamento mesmo da modernidade, que reduz a existência ao valor de uso e à lógica do desempenho. Sua escrita não apenas denuncia os efeitos da devastação ambiental, mas convoca os leitores a um deslocamento profundo de sensibilidade. Em vez de propor soluções técnicas para a crise climática, Krenak propõe um novo modo de estar no mundo, fundado no respeito à alteridade dos seres e no reencontro com o tempo da natureza.
Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce. Não imaginava que o mundo nos traria esse outro luto. Está todo mundo parado. Quando engenheiros me disseram que iriam usar a tecnologia para recuperar o rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu respondi: “A minha sugestão é muito difícil de colocar em prática. Pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a cem quilômetros nas margens direita e esquerda, até que ele voltasse a ter vida”. Então um deles me disse: “Mas isso é impossível”. O mundo não pode parar. E o mundo parou. Vivemos hoje esta experiência de isolamento social, como está sendo definido o confinamento, em que todas as pessoas têm de se recolher. Se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados da ruptura ou da extinção do sentido da nossa vida, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. Assistimos a uma tragédia de gente morrendo em diferentes lugares do planeta, a ponto de na Itália os corpos serem transportados para a incineração em caminhões (Krenak, 2020, p. 42-43).
Nesse excerto de A vida não é útil, Krenak articula crítica e lirismo para evidenciar o colapso da relação entre humanidade e natureza, a partir da metáfora do luto duplo: o primeiro, local e ancestral, pelo rio Doce morto pela lama da mineração; o segundo, global e recente, imposto pela pandemia. Sua fala denuncia o esgotamento da racionalidade técnico-científica ao narrar o encontro com engenheiros que, embora busquem “recuperar” o rio, rejeitam a sugestão de parar as atividades humanas como algo “impossível”. Esse diálogo expõe o impasse civilizacional: a lógica do progresso é incompatível com o cuidado e a regeneração do planeta. O paradoxo se consuma quando, diante de uma ameaça à sobrevivência global — a pandemia —, o “impossível” acontece: o mundo para.
Krenak transforma esse episódio em reflexão filosófica e política, revelando que o confinamento humano espelha aquilo que os povos indígenas sempre viveram
— um confinamento forçado, marginal, ameaçado, agora ampliado a toda a humanidade. Ao evocar a imagem dos corpos italianos sendo transportados em caminhões, ele rompe qualquer distância emocional entre a tragédia ecológica e a tragédia humana, unificando-as sob a mesma catástrofe civilizatória que insiste em não ouvir a Terra.
Nesse sentido, as contribuições de Krenak à literatura e ao pensamento ecológico se revelam de enorme relevância no campo da ecocrítica. Ao articular tradição oral, filosofia indígena e crítica civilizatória, ele amplia as fronteiras do literário e inscreve sua obra em um projeto de reencantamento do mundo. A partir de sua perspectiva, sobreviver não significa apenas manter-se vivo biologicamente, mas cultivar vínculos profundos com a Terra, escutar seus sinais e resistir à imposição de uma única forma de vida. Suas narrativas, assim, funcionam como contra-hegemonias imaginativas que convocam uma ética do cuidado, da interdependência e da escuta cosmológica.
Em Kuján e os meninos sabidos, pode-se fazer uma crítica dentro de um paradigma mais amplo de descolonização do saber e de valorização das pedagogias ancestrais. O personagem Kuján, longe de representar apenas uma figura alternativa ao mestre tradicional, simboliza uma ruptura com a lógica da instrução linear e hierárquica típica do modelo cartesiano, em que o conhecimento é transferido como objeto. Ao contrário, Kuján ensina por meio da experiência, do silêncio, da aprendizagem atenta e da convivência, elementos fundamentais nas pedagogias
indígenas. A citação a seguir reforça esse aspecto ao mostrar como o aprendizado ocorre em um ambiente afetivo e simbólico, no qual o tamanduá (figura híbrida entre animal e ancestral) só se torna humano “para os olhos das crianças”, isto é, na medida em que elas desenvolvem a capacidade de ver com sensibilidade, imaginação e respeito. O trecho “[...] enquanto o kuján estivesse ali, os meninos sabidos iam cuidar dele e, quando estivessem a sós, iam ouvir histórias e aprender com o Avó. Quando falava, o tamanduá tomava forma de gente, e isso era bom para os olhos das crianças” (Krenak; Carelli, 2024, p. 26-27) revela um processo de aprendizagem relacional, ritualístico e poético, em que cuidar e aprender se entrelaçam. Assim, a narrativa aponta para uma epistemologia do afeto e da reciprocidade, em que o conhecimento não é imposto, mas vivido, compartilhado e reconhecido em sua multiplicidade de formas, inclusive aquelas que não cabem nos parâmetros da ciência ocidental.
A VIDA NÃO É ÚTIL: A RECUSA DA PRODUTIVIDADE COMO FUNDAMENTO EXISTENCIAL
O livro de ensaios A vida não é útil, apresenta uma crítica incisiva à racionalidade moderna, evidenciando os limites éticos e existenciais de uma sociedade fundada no princípio da utilidade. O autor desestabiliza o paradigma produtivista ao afirmar que a vida não pode ser reduzida à sua capacidade de gerar valor, lucro ou desempenho. Trata-se de uma recusa não apenas simbólica, mas ontológica: viver não é sinônimo de funcionar. A pandemia da COVID-19, nesse contexto, é interpretada por Krenak como o colapso visível de um modelo civilizatório que não sabe lidar com a incerteza, a interrupção e a morte, ou seja, elementos constitutivos da experiência humana, mas que foram silenciados pela ilusão de controle e progresso permanente.
Essa crítica se insere em um debate filosófico mais amplo sobre os efeitos do capitalismo tardio na constituição das subjetividades. A lógica do desempenho, como transforma o sujeito em empresário de si mesmo, sempre em busca de metas, otimização e produtividade. Krenak rompe com esse imaginário ao propor uma “suspensão do mundo”, uma interrupção radical do fluxo contínuo de tarefas, consumo e aceleração. Essa suspensão, no entanto, não se refere a uma passividade
alienante, mas a um espaço de escuta e reencantamento do mundo, no qual possamos resgatar outras formas de relação com a Terra, com o tempo e com o outro.
Uma operação de resgate tem como intuito salvar o corpo que está sendo flagelado e levá-lo para um outro lugar, onde será restaurado. Quem sabe, depois de uma reabilitação, ele pode até seguir operante na vida. Isso partindo da ideia de que a vida é útil, mas a vida não tem utilidade nenhuma. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é uma besteira. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária [...] Por que insistimos em transformar a vida em uma coisa útil? Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência. Se continuarmos comendo o planeta, vamos todos sobreviver por só mais um dia (Krenak, 2020, p. 57-58).
Nesse fragmento, Krenak desconstrói de forma contundente a lógica utilitarista que rege a modernidade, revelando o esvaziamento existencial de uma vida reduzida à funcionalidade e à produtividade. Ao ironizar a “operação de resgate” como metáfora da tentativa moderna de restaurar corpos para que voltem a ser “operantes”, o autor expõe a visão tecnocrática que transforma a existência em engrenagem, ocultando sua dimensão sensível e cósmica. A afirmação de que “a vida não tem utilidade nenhuma” subverte a lógica do desempenho ao propor uma ontologia da fruição, na qual viver é dançar com o mistério, e não cumprir um papel imposto por normas sociais ou econômicas. A crítica torna-se ainda mais incisiva ao relacionar essa lógica à devastação ambiental: ao transformar a Terra em recurso a ser consumido para sustentar a sobrevivência, perdemos a capacidade de viver plenamente. A advertência final: “vamos todos sobreviver por só mais um dia”, revela o paradoxo da modernidade: prolongamos a vida à custa de sua própria essência. Krenak invita, assim, uma ética do encantamento, em que viver é resistir à barganha civilizatória e afirmar, com coragem, a radical gratuidade da existência.
A proposta de Krenak se articula também com a crítica à temporalidade moderna. O autor defende a reativação do “tempo profundo”, uma temporalidade cíclica e fluida, distinta do tempo linear e cronológico imposto pela modernidade. Esse tempo profundo está ligado aos ciclos da natureza, aos ritmos dos corpos e às narrativas ancestrais. Ao invés de medir o tempo em produtividade, o tempo
profundo valoriza a escuta, o cuidado e a convivência. É nesse tempo que se desenham os saberes indígenas, transmitidos por meio da oralidade, da memória e da experiência com o mundo sensível. A recusa da utilidade, sobretudo, é também uma recusa do relógio como símbolo de dominação.
Nesse horizonte, a literatura desempenha um papel fundamental como espaço de criação de sentido. Em A vida não é útil, a escrita de Krenak ultrapassa os limites do ensaio convencional e se aproxima de uma poética filosófica, que mobiliza afetos, memórias e imagens do mundo ameríndio. Ao escrever, o autor convida o leitor a uma travessia simbólica, uma espécie de rito de passagem para outro modo de estar no mundo. A literatura, assim, não é apenas denúncia, mas gesto criador: ela planta sementes de mundos possíveis, convoca à escuta da Terra, suspende o utilitarismo do discurso e reencanta a linguagem como meio de resistência.
Por fim, o paradoxo da sobrevivência formulado por Krenak evidencia uma contradição essencial da modernidade: para continuar existindo enquanto espécie, precisamos abrir mão dos pilares que sustentam o nosso modo de vida atual. Trata-se de uma virada ética e cosmológica que exige desaprender o mundo tal como nos foi ensinado, um mundo fundado na separação entre natureza e cultura, sujeito e objeto, razão e sensibilidade. Krenak nos convoca, portanto, não apenas a repensar o que é viver, mas a reaprender a sonhar, escutar e pertencer. Sua obra inscreve-se como uma das mais potentes expressões da literatura indígena contemporânea, capaz de conjugar crítica política, poética da existência e cosmologia em um gesto de profunda resistência e esperança.
KUJÁN E OS MENINOS SABIDOS: O RITO DE PASSAGEM COMO RESISTÊNCIA
Kuján e os meninos sabidos insere-se no campo da literatura infantojuvenil de maneira fortemente singular, ao articular, sob a configuração de fábula, um projeto filosófico e ecológico que desafia as convenções da pedagogia ocidental moderna. O texto opera em múltiplos níveis simbólicos e epistemológicos, e sua simplicidade narrativa esconde uma elaboração complexa de sentidos. Ao narrar a jornada de um grupo de crianças guiadas por Kuján, o sábio da aldeia, Krenak propõe uma pedagogia da escuta e do encantamento, na qual o saber não é transmitido como
conteúdo a ser memorizado, mas experimentado como transformação do olhar, do corpo e do tempo.
Kuján encarna a figura do mestre ancestral, cuja autoridade não advém do acúmulo de conhecimento técnico, mas da sabedoria experienciada na escuta do mundo natural. Ele não impõe regras nem oferece respostas prontas; ao contrário, convida ao silêncio, à contemplação e ao respeito. Essa figura rompe com o ideal iluminista de ensino racional e disciplinar, centrado na objetividade e na utilidade. Em Kuján e os meninos sabidos, a aprendizagem se dá por imersão afetiva e ritualística em uma temporalidade outra, isto é, “o tempo da mata”, que não se apressa, como afirma o narrador. Esse tempo ecológico é o oposto do tempo cronológico da modernidade, revelando uma cosmologia que valoriza os ciclos, a espera e a reciprocidade.
A frase “Naquela noite os meninos tiveram as primeiras revelações do Kuján sobre o tempo [...]. Divertiram-se com as histórias da criação, aprenderam novas cantigas e também como curar algumas doenças” (Krenak, 2020, p. 28) e continua “Era muito bom ficar junto do Avô ouvindo suas histórias e o tempo passou voando como vento” (Krenak; Carelli, 2024, p. 31). O tempo dos homens é curto, mas o tempo da mata não se apressa. Kuján sabia disso, e os meninos, logo, também saberiam, bem como esse ritual de aprendizagem sintetiza a oposição entre dois regimes temporais: o tempo da produtividade humana e o tempo da vida não-humana. A educação proposta na narrativa não visa preparar os jovens para serem “úteis” no mundo moderno, mas para serem presentes no mundo vivo. É uma ética da convivência, em que a floresta não é recurso a ser explorado, mas sujeito a ser escutado. Nesse sentido, o livro funciona como uma crítica implícita à escolarização ocidental que, ao desconsiderar os saberes ancestrais e os modos de vida sustentáveis, aliena o sujeito de sua condição ecológica.
Essa estrutura de aprendizado dialoga diretamente com a teoria dos ritos de passagem desenvolvida por Arnold Van Gennep (2011), segundo a qual o processo de transformação de um indivíduo envolve três fases: separação, margem (ou liminaridade) e agregação. Em Kuján e os meninos sabidos, os jovens são simbólica e fisicamente retirados de seu estado inicial e inseridos em uma jornada de liminaridade ao lado do Kuján, onde não apenas escutam, mas experimentam o mundo de outra maneira: “Em seguida, os meninos tiveram que despitar todo
mundo para aprender com o kuján a construir canoas, fazer casas e organizar festas” (Krenak; Carelli, 2024, p. 31). A floresta torna-se o espaço liminar por excelência, onde os sentidos se aguçam, as palavras ganham peso simbólico e o silêncio se converte em forma de saber.
O rito, porém, não se limita ao campo psicológico ou cultural; ele é profundamente ecológico. Trata-se de uma iniciação em uma ética que rompe com a lógica do domínio, da posse e da utilidade, pilares da modernidade. Ao propor que as crianças aprendam com o silêncio da mata, com os gestos do Kuján e com a convivência com o tamanduá, Krenak propõe uma ecopedagogia fundamentada na escuta profunda do mundo. Essa escuta não é apenas sensorial, mas ontológica: é escutar o mundo como sujeito, reconhecer a agência dos rios, das árvores, dos bichos. Em vez de tornar os meninos sujeitos racionais preparados para dominar a natureza, a narrativa os forma como guardiões do vínculo entre humanidade e Terra.
Em linhas gerais, Kuján e os meninos sabidos deve ser lido como um manifesto literário e pedagógico contra a colonialidade do saber. Em sua forma poética e delicada, a obra inscreve os valores da oralidade, da ancestralidade e da cosmopolítica ameríndia no coração de um gênero literário ainda hegemonicamente dominado por paradigmas eurocêntricos. Ao transformar a floresta em professora e o silêncio em ensinamento, Krenak descoloniza o espaço da infância e da aprendizagem, oferecendo às novas gerações uma via de retorno ao encantamento do mundo — não como nostalgia, mas como possibilidade radical de futuro.
O paradoxo da sobrevivência, tal como elaborado por Krenak, opera como uma chave crítica e existencial que desmonta os fundamentos da modernidade ocidental. Para continuar existindo, afirma o autor, é necessário negar os pressupostos que sustentam a própria definição moderna de vida: produtividade, crescimento contínuo, domínio da natureza e centralidade do humano. Esse deslocamento implica abandonar a lógica do utilitarismo, que transformou a existência em um meio para fins econômicos, políticos e tecnológicos. O autor
propõe, ao contrário, uma ética da gratuidade e da presença, em que viver é partilhar o mundo, em sua alteridade e mistério, com todos os seres. Não se trata de uma sobrevivência em termos biológicos, mas de uma permanência cosmopolítica que exige desaprender o mundo moderno para reaprender a vida como fruição e interdependência.
Essa reflexão dialoga de maneira produtiva com os três ecologismos de Félix Guattari (1990): a ecologia ambiental, a ecologia social e a ecologia mental. Guattari propõe que a crise ambiental não pode ser resolvida apenas com ações técnicas ou políticas isoladas, pois está enraizada em formas de subjetivação colonizadas por um imaginário de separação, competição e exploração. Nesse sentido, a contribuição de Krenak se destaca por incidir diretamente sobre a ecologia mental, ao propor um outro regime de sensibilidade, quer dizer, um modo de habitar o mundo que revaloriza a escuta, o silêncio, os ciclos da natureza e os saberes ancestrais. Sua crítica à ideia de que “a vida deve ser útil” é, na verdade, uma crítica ao próprio modo de desejar construído pelo capitalismo.
A literatura, nesse contexto, não é apenas repositório de símbolos ou narrativas ilustrativas, mas campo performativo de transformação subjetiva. Os textos de Krenak mobilizam a força do mito, da oralidade e do sonho como formas de desorganizar o pensamento racionalista e reconectar os leitores a um tempo profundo e relacional. A palavra, quando colocada em função do reencantamento, deixa de ser ferramenta de controle e passa a ser veículo de travessia simbólica, uma abertura para outras cosmologias. A literatura torna-se, assim, um espaço onde é possível ensaiar novas formas de ser, de sentir e de imaginar o mundo.
Essa dimensão simbólica e sensível da escrita de Krenak remete à noção de cosmopolítica, como formulada por Isabelle Stengers (2018), que propõe uma política dos múltiplos mundos possíveis, onde humanos e não humanos são agentes de composição comum. Ao trazer para o centro da narrativa os rios, os bichos, os espíritos e as montanhas como sujeitos dotados de agência, Krenak rompe com o antropocentrismo e propõe uma política da coexistência. O paradoxo da sobrevivência, nesse sentido, revela-se como convite à desobediência civilizatória: só será possível continuar se nos recusarmos a continuar nos termos em que temos vivido até agora.
É importante notar que essa desobediência não significa negação da vida, mas precisamente sua afirmação mais radical. Ser “radicalmente vivo”, nas palavras de Krenak, é recusar a barganha da sobrevivência num mundo esgotado por sua própria lógica destrutiva. É escolher dançar com a Terra, mesmo quando o mundo insiste em andar em linha reta rumo ao abismo. Trata-se de uma insurgência ontológica, que desloca o eixo do humano para abrir-se à escuta de outras existências, não como recurso, mas como presença. A literatura, nesse processo, atua como gesto de cura coletiva, como xamanismo poético que devolve ao leitor a capacidade de sentir o mundo com outros olhos.
Desse modo, a proposta de Krenak não é apenas uma crítica ao modelo civilizatório vigente, mas também um projeto de reeducação sensível e ética. O paradoxo da sobrevivência aponta para uma alternativa de futuro que não passa pela tecnocracia nem pela aceleração da vida, mas por um profundo realinhamento dos afetos, das práticas e dos imaginários. Em tempos de crise ecológica e de colapso das formas de convivência, suas narrativas oferecem um horizonte de esperança fundamentado na interdependência, na memória dos ancestrais e na confiança de que ainda podemos aprender a habitar o mundo, não como donos, mas como parte de um grande organismo vivo.
As obras A vida não é útil e Kuján e os meninos sabidos operam como gestos insurgentes dentro do campo literário e político, propondo uma virada cosmológica e ética. Através de uma linguagem que articula o poético e o filosófico, Ailton Krenak convoca o leitor a repensar o sentido da vida, não como utilidade, mas como encantamento, relação e escuta.
A literatura, neste contexto, torna-se um meio de resistência simbólica ao colapso ambiental e civilizacional. Ela não apenas denuncia, mas propõe mundos possíveis. Ao inserir-se na tradição ecocrítica, mas com forte ancoragem nos saberes ameríndios, a obra de Krenak contribui para a descolonização dos imaginários e para a construção de novas ontologias da convivência.
O paradoxo da sobrevivência, tal como formulado por Krenak, desafia o leitor a aceitar que só haverá futuro se a vida deixar de ser vista como recurso. A literatura,
ao dar voz a essa sabedoria ancestral, reafirma seu papel como prática de cura, rito de passagem e escuta da Terra, afinal, “nunca vai ocorrer a um peixinho que o oceano tem que ser útil, o oceano é a vida. Mas nós somos o tempo inteiro cobrados a fazer coisas úteis. É por isso que muita gente morre cedo, desiste dessa bobagem toda e vai embora” (Krenak, 2020, p. 58).
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